terça-feira, 2 de agosto de 2016

-r Abschied (-e)

Típico de mim, sofrer por antecipação. Tão clichê, a dor e o choque de perceber que aquilo que você vinha negando ferozmente pra si mesma uma hora chega, independente da sua vontade. Mais uma vez, e sempre, as mesmas perguntas: "mas o que será de mim?", "mas o que será de nós?", "mas o que será do mundo?". Como se alguém soubesse as respostas. Como se fosse mudar alguma coisa sabê-las. A teimosia inerente ao ser humano ainda daria vontade de tentar, porque afinal, quem sabe, pode ser que seja tudo diferente. Pode ser que dessa vez seja o certo. E aí? 

E aí, hora de virar pro lado certo o mundo que estava de cabeça pra baixo. Hora de tirar a poeira dos relacionamentos passados, dos sorrisos passados. Tirar eles do fundo do coração pra dar lugar pras novas saudades. E guardar essas até que venham as novas. Como se desfazer?

É doloroso perceber que a vida, no final das contas, nada mais é que um conjunto de chegadas e partidas, de encontros e despedidas. E aqueles momentos pelo meio, que dão o significado, o sabor amargo e o sorriso torto de dizer:

"Então tá, até algum dia, a gente se fala, a gente se vê."


sexta-feira, 1 de abril de 2016

-e Verzweiflung (o.pl)

Respira. Bota pra fora junto com o gás carbônico essa insegurança toda. Vamo usar esse nariz tão avantajado pra alguma coisa. Deixa sair o medo, a saudade, a incerteza, a falta daquela luz no fim do túnel que o astigmatismo não deixa ver. Não sai correndo. Você só vai ficar mais cansada e com dor nas pernas. Espera um pouquinho que já passa. Então, certeza eu não tenho, mas a gente espera, né? Não desiste da vida. Imagina se você tivesse deixado de existir da primeira vez que te deu vontade de sumir? Ou da segunda. Ou da milionésima. Ou aquela vez semana passada, que até eu já perdi as contas de qual foi. Vai dizer que não teve umas coisas legais aí pelo meio? Teve sim, que eu sei. Eu vejo os seus sorrisos também, sabia? Não esquece que você não tá sozinha. Eu sei que carregar o peso do mundo todo nas costas deve ser bem ruim mesmo, mas que tal se desse pra dividir com mais algumas pessoas? Vai, manda uma mensagem aí que elas jajá tão por aqui. Se acalma, criatura. Ok, talvez essa seja a pior coisa pra se dizer pra uma pessoa estressada. Mas é sério. Como já diria uma pessoa muito sábia, vai dar certo! É, eu sei, voce que vive dizendo isso. 
E que tal comecar a acreditar?

sábado, 13 de fevereiro de 2016

-e Blutung (-en)

Assim se abre. 

As palavras correm pra fora, 
antes que seja possível 
segurar, 
ou pensar, 
ou respirar. 

Como uma torrente, 
um fluxo incontrolável, 
uma avalanche de tudo 
e de nada 
ao mesmo tempo. 

É um vazio 
disfarçado de excesso, 
uma sede 
disfarçada de afogamento, 
uma fuga 
disfarçada de abraço. 

É colocar pra fora 
aquilo que o coração grita, 
mas que a garganta cala.
 É libertar aquilo que te faz prisioneiro, 
na vã esperança que isso só 
vá embora 
e te deixe ser. 

Ou não ser. 

Ou decidir 
se você quer ser 
ou não. 

segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

-s Parasem (-e)

"O coração nunca esquece o caminho de casa".
"Tu te tornas eternamente responsável pelo que cativas".
"Nós podemos sempre mais do que imaginamos".

Eu gosto de frases feitas. Sempre tenho aquele sentimento de alívio quando alguém que não me conhece, que nunca me viu na vida e não faz ideia do que eu estou passando, coloca em palavras aquilo que às vezes eu engasgo. Como um abraço, faz com que eu me sinta compreendida, que eu não me sinta sozinha. Então, quando eu escrevo, eu só espero fazer isso por alguém. Tão ou mais prazeroso é saber que é você quem está, inadvertida e acidentalmente, traduzindo para o português (ou para o inglês ou, quem sabe um dia, para o alemão) aquilo que alguém sequer entende que sente.

Não acho que foi por isso que eu comecei a gostar de ler. Na realidade, acho que teria sido mais pra sentir coisas diferentes das que eu sentia na vida real do que pra me identificar. Céus, não sei se teria sobrevivido ler assim tão descarada e literalmente todas as sombras que viviam na minha alma. Até hoje se eu leio algo que parece com aquela época me dá um arrepio. Como quem olha pra uma cicatriz bem feia, daquelas que quando era uma ferida aberta parecia que jamais sararia, mas que, depois de doer muito, e de se abrir de novo umas tantas vezes, quando você menos esperava, caiu a casca e deixou aquela marcca que você levaria pra sempre. E que, quem sabe, algum dia você pode contar aquela história com cara de "pois é, eu sobrevivi". Ou talvez não.

Acho que a moral da historia é que ler (e escrever) tem o poder magnânimo de fazer sentir. Seja lendo um livro de literatura fantástica dos que conseguem fazer você  esquecer que ainda vive no mesmo planeta desinteressante de sempre. Seja lendo um livro de literatura erótica que te coloca numa posição inimaginável (trocadilho intencional). Seja lendo um testemunho de alguém que desnuda a alma e faz você  pensar "eu sei como você se sente." E até hoje eu só encontrei uma coisa que tem o poder de me fazer sentir tanto quanto as palavras, sejam elas escritas ou cantadas.

E eu mal posso esperar pra ver ele de novo amanhã.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

-e Enttäuschung (-en)

Confiar em alguém é uma das coisas mais difíceis que se pode fazer na vida. Porque, no momento em que você deposita a sua confiança em alguém, aquela pessoa toma posse também de uma coisa muito poderosa: o poder de lhe decepcionar. Aquilo em que você acredita, confia e espera com mais afinco é o que mais lhe machuca quando se revela aquém do esperado. É quem você mais ama que tem uma maior capacidade de lhe machucar. 

Ser uma pessoa que sempre espera o melhor de todo mundo torna-se, então, muito doloroso às vezes. É um eterno desafio ver-se frente a uma nova pessoa, uma nova oportunidade, e procurar ver o bem e a pureza nas intenções daquele coração. Mas as pessoas são falhas. E, convenhamos, é só uma questão de tempo até que elas falhem e você se pegue pensando: "no fundo, eu esperava tão mais de você". 

E dói. É quase como uma traição. E sequer faz sentido. Aquela pessoa muitas vezes nunca se declarou ser aquilo que você imaginava, mas você pintou ela com as cores que você mais gostava e é sempre duro descobrir que todo mundo tem um lado meio preto e branco.

sábado, 12 de setembro de 2015

-e Übergabe (-n)

Como eu queria não sentir. Como eu queria poder sair sem que viesse frio. Como eu queria poder tocar sem que viesse o arrepio. Como eu queria poder dizer sem que faltassem as palavras, ou o tempo, ou a vontade, ou a coragem. Como eu queria poder deixar sem que viesse a dor, ou o medo, ou o pesar. Como eu queria poder viver, sem que faltasse a certeza. Como eu queria poder jurar sem que faltasse a dúvida. Como eu queria não ser sem que houvesse o desejo irrefreável de ser, a qualquer custo, de qualquer forma, a qualquer momento, ser e nunca mais tornar a não ser.

Então agora vou lá fora comprar um casaco novo, vou comprar um par de luvas e uma boa dose de auto respeito. Vou me amar primeiro, e, depois, falar que amo mesmo, porque é tão bom. Vou valorizar as coisas e as pessoas hoje, antes que seja tarde. Vou encarar os desafios com a única certeza que eu tenho: Deus é mais. Vou defender minhas crenças, meus pontos de vista, minhas verdades. E vou ser sim, vou ser eu, vou ser errada, inconstante, eternamente mutável, mas sempre eu.

segunda-feira, 31 de agosto de 2015

-e Sehnsuchte (-¨e)

Não sei se adiantaria dizer que eu não queria escrever sobre saudade. Acho que eu nunca tive essa opção. Talvez, na realidade, esteja a saudade agora escrevendo sobre mim.

Não sei se adiantaria pensar que saudade é uma coisa boa, que sofrer também ensina a ser forte, que depois da tempestade vem a bonança. Acho que, no fundo, nem eu acredito nisso. Talvez, na realidade, eu só queira ser a Florbela Espanca e saber escrever sobre saudade e sofrimento com uma leveza e uma profundidade que fazem a alma se contorcer de dor.

Não sei se adiantaria lembrar que esse texto deveria ser menos metalinguístico e mais metafísico. Acho que eu deveria parar de mandar no que eu sinto vontade de escrever. Talvez, e só talvez, algum dia alguém descubra que, afinal de contas, escrever sobre a saudade, falar sobre a saudade, colocar a saudade pra fora, faz com que ela fique um pouco menor, um pouco mais amena, um pouco mais tolerável.

Não sei se adiantaria ressaltar que, não, isso ainda não é verdade. Acho que não há muito o que se possa fazer com uma saudade que só aumenta, com uma distância que faz cada vez mais reféns, com uma homesickness, uma Heimweh, uma Sehnsuchte, um desejo, uma falta, uma escassez e uma necessidade de ter de novo, de ver de novo, de sentir de novo, de ser de novo. Talvez, ou provavelmente, a pessoa de quem eu mais vou sentir saudade nessa história toda seja eu mesma.

Não sei se adiantaria negar que as coisas mudam, que as pessoas mudam, que a vida, lindamente, é efêmera. Acho que é a efemeridade das coisas eternas que as faz mais bonitas. Talvez, e eu espero que sim, algum dia eu consiga admirar essa beleza sem lágrimas nos olhos e um aperto no peito e um prece nos lábios e um pedaço a menos no coração.

Não sei, acho que, talvez... Quem sabe? Só sei que estou com, nossa, muita saudade.