sábado, 12 de setembro de 2015

-e Übergabe (-n)

Como eu queria não sentir. Como eu queria poder sair sem que viesse frio. Como eu queria poder tocar sem que viesse o arrepio. Como eu queria poder dizer sem que faltassem as palavras, ou o tempo, ou a vontade, ou a coragem. Como eu queria poder deixar sem que viesse a dor, ou o medo, ou o pesar. Como eu queria poder viver, sem que faltasse a certeza. Como eu queria poder jurar sem que faltasse a dúvida. Como eu queria não ser sem que houvesse o desejo irrefreável de ser, a qualquer custo, de qualquer forma, a qualquer momento, ser e nunca mais tornar a não ser.

Então agora vou lá fora comprar um casaco novo, vou comprar um par de luvas e uma boa dose de auto respeito. Vou me amar primeiro, e, depois, falar que amo mesmo, porque é tão bom. Vou valorizar as coisas e as pessoas hoje, antes que seja tarde. Vou encarar os desafios com a única certeza que eu tenho: Deus é mais. Vou defender minhas crenças, meus pontos de vista, minhas verdades. E vou ser sim, vou ser eu, vou ser errada, inconstante, eternamente mutável, mas sempre eu.

segunda-feira, 31 de agosto de 2015

-e Sehnsuchte (-¨e)

Não sei se adiantaria dizer que eu não queria escrever sobre saudade. Acho que eu nunca tive essa opção. Talvez, na realidade, esteja a saudade agora escrevendo sobre mim.

Não sei se adiantaria pensar que saudade é uma coisa boa, que sofrer também ensina a ser forte, que depois da tempestade vem a bonança. Acho que, no fundo, nem eu acredito nisso. Talvez, na realidade, eu só queira ser a Florbela Espanca e saber escrever sobre saudade e sofrimento com uma leveza e uma profundidade que fazem a alma se contorcer de dor.

Não sei se adiantaria lembrar que esse texto deveria ser menos metalinguístico e mais metafísico. Acho que eu deveria parar de mandar no que eu sinto vontade de escrever. Talvez, e só talvez, algum dia alguém descubra que, afinal de contas, escrever sobre a saudade, falar sobre a saudade, colocar a saudade pra fora, faz com que ela fique um pouco menor, um pouco mais amena, um pouco mais tolerável.

Não sei se adiantaria ressaltar que, não, isso ainda não é verdade. Acho que não há muito o que se possa fazer com uma saudade que só aumenta, com uma distância que faz cada vez mais reféns, com uma homesickness, uma Heimweh, uma Sehnsuchte, um desejo, uma falta, uma escassez e uma necessidade de ter de novo, de ver de novo, de sentir de novo, de ser de novo. Talvez, ou provavelmente, a pessoa de quem eu mais vou sentir saudade nessa história toda seja eu mesma.

Não sei se adiantaria negar que as coisas mudam, que as pessoas mudam, que a vida, lindamente, é efêmera. Acho que é a efemeridade das coisas eternas que as faz mais bonitas. Talvez, e eu espero que sim, algum dia eu consiga admirar essa beleza sem lágrimas nos olhos e um aperto no peito e um prece nos lábios e um pedaço a menos no coração.

Não sei, acho que, talvez... Quem sabe? Só sei que estou com, nossa, muita saudade.

segunda-feira, 24 de agosto de 2015

-e Betäubug (-en)

Que acabe essa fome, essa sede, essa vontade de ser preenchido, de se preencher. Que acabe todo o mal que se deseja, todo o brilho do olhar que não lampeja, todo o medo de sentir e de afagar. 
E, por favor, que chegue a paz, a tal liberdade, o respirar fundo sem o peso do mundo. Que chegue a esperança de que um dia tudo passa e de que se ainda não deu certo é porque não é o final e de que no final do arco íris se esconde o tesouro, e não um pote cheio de douradas decepções.

sexta-feira, 15 de maio de 2015

-e Wiederaufnahme (-n)

Pode bater à porta. Pode fazer um escarcéu, dizer em palavras frias a raiva que lhe aquece o peito. Pode reclamar da falta de tempo, do tempo que falta, do tempo que passou. 
Vai, pode bater o pé. Pode falar que não vai embora, que o passado ainda vive e que o presente quase morre. O futuro não muda. Não, não adianta chorar. Sim, eu sei que ainda dói. Ainda vai doer por um tempo. Melhor se acostumar e tentar deixar a dor ficar dormente antes de adormecer. Não, eu não quero que você tenha pesadelos. 
Pode findar a calma, rasgar a alma. O rio que transborda a carne pode deixar jorrar. Mas não queira me machucar ferindo a face que ora me atina, ora me atura, mas que eu sempre adoro. Não adianta se prender ao mal que passou. 
Sim, é melhor seguir. Mas, sim, você pode ficar. Pode ter certeza de que eu fico. Não, eu não vou sair do lugar. Pode gritar que nada mudou. Não, eu não sou a mesma. 
Pode sorrir, pode chorar, pode sofrer, pode cantar. Pode sair, pode chegar. 
Só não se atreva a entrar.